A presença que faltava

Em dias de chuva, os esperados passeios matinais da Olívia no parquinho sofrem alterações.

É quando temos que criar possibilidades dentro de casa ou na brinquedoteca, que tem em nosso condomínio, para passar o tempo dela. Foi nesse cenário compartilhado com algumas poucas crianças e babás que, certa manhã, eu senti uma mãozinha encostar nas minhas costas e dizer: “Papai!” Virei instintivamente e passei o braço por cima, como quem fosse abraçá-la; quando olhei, não era a Olívia, era Helena. Uma menininha morena, linda, de cabelos cacheados e muito simpática. Rindo, eu disse: – Achei que fosse a Olívia! Nos dias seguintes, com mais chuvas, Helena voltaria a me chamar de papai novamente.

Por volta da terceira vez que isso aconteceu, a babá da Helena a chamou para mais perto e disse: – Esse tio é o papai da Olívia, o seu papai está trabalhando! E assim, me pareceu que o engano havia sido resolvido. Passados alguns minutos, a babá veio a mim pedir desculpas e compartilhou sobre como a Helena tem sentido falta da presença do pai; enquanto ele não está na escala de trabalho, está em outro negócio paralelo, descreveu ela. E acrescentou: – Quando têm folga, ambos os pais viajam e a deixam por minha conta. Segundo ela, acabava sendo quem realmente criava e educava a menina.

Em momentos como esses, muitos pensamentos passam pela cabeça. Inevitavelmente, não posso negar, fiz críticas aos modos operantes daqueles pais. E quem não faria também? Mais do que isso, o que me vem à mente — e o que é mais importante — é me autoavaliar: “Dentro das minhas possibilidades, eu tenho tido tempo de qualidade com a minha filha?”; “Como me policiar para não ser um ‘workaholic’?”.

Em uma entrevista sobre o filme “O filho de mil homens1, o ator Rodrigo Santoro, que interpreta um homem que sonha em ser pai, disse sobre os desafios da paternidade: “Não é mais sobre você. É sobre o quanto o outro precisa de você, do teu amor, da tua atenção, do teu carinho, de tudo que você puder dar. É realmente um exercício para o seu ego, um exercício para a sua humildade, um exercício de aprofundamento humano, de você realmente começar a ver o que é essa vida, o que é importante.

Tenho plena consciência de que cada casa é um caso e que cada família tem sua realidade, mas, consciente do meu privilégio de poder ter alguns momentos de qualidade com a minha filha durante o dia, mesmo na rotina de trabalho e outros afazeres da vida adulta, tenho aprendido que ser bem-sucedido fora de casa e um fracasso dentro dela não vale a pena. Não quero ser como Cooper, o protagonista do filme “Interestelar“, que deixou de ver seus filhos crescendo para seguir o seu trabalho, enquanto sua filha fazia de tudo para trazê-lo de volta para casa.

O tempo é frágil, importante e segue adiante. Não podemos reviver e trazer o que foi perdido. A infância passa rápido e nenhum dinheiro compra de volta aquela tarde perdida, um abraço não dado, uma história não contada antes de dormir… De que vale ganhar o mundo inteiro e perder os que estão em casa?


Nota do autor: Os nomes e detalhes desta crônica foram alterados para preservar a privacidade das pessoas envolvidas. A história reflete situações reais observadas no cotidiano da paternidade.

  1. Filme de linguagem poética e abordagem alternativa, com classificação indicativa para maiores de 18 anos. ↩︎